domingo, 21 de dezembro de 2008

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E assim, ela vivia. Sem mais, ou demais. Sem excessos, sem mistérios, só mais uma em meio de muitas. Cheia de cautela, de razão, mas sempre se perdia ao olhar pra dentro de si mesma. Toda cautela, toda razão, se perdia por uma palavra, um olhar, um indício. Ela sempre tentou se fechar dentro das suas próprias desilusões, mas sempre se feriu com os cacos dos seus sonhos. Sempre abriu seu coração, pra poder sentir, e tentar saber, ter certeza sobre o que era, o que havia ali, mas assim, acabou por se expor demais.
E era assim, na solidão em que ela mesma se colocou, via a vida passar. As luzes refletidas nas paredes que engoliam as palavras e os sussurros que ela dizia em silêncio. Os sons dos acordes que ela tomava sempre como abraços pra amenizar o vazio que ela carregava, às vezes só aumentavam o grande espaço que ela não podia preencher. As fotos que nunca foram tiradas, as flores que ela nunca ganhou, as palavras que ela não ouviu, os sorrisos alheios, as sensações que nunca existiram, os amigos, os amores que lhe deram as costas, ali, cravados nela, enquanto seus olhos refletiam os tons entre o claro e o escuro, daquele mundo pra onde ela podia fugir. Quantas vezes na solidão de seus dias, não se imaginava segurando as mãos de alguém. Ali, na overdose de cores e sons, imagens e gritos silenciosos, ela sonhava com aquilo que jamais viveu. Ela queria, sonhava, com alguém que a fizesse viver. Alguém que afundasse nela, e a fizesse percorrer por mundos que ela desconhecia; alguém que ela pudesse olhar no fundo dos olhos e contar seus segredos, planos; alguém que a quisesse sempre por perto.
E caminhava pelas ruas, vendo pessoas, apenas rostos sem nome numa multidão que segue seu caminho. E então o céu, o vendo, as flores caídas no chão, as folhas por cair, os vôos, os ruídos, e a profusão de passos e palavras. Em cada face, sorrisos, rugas, gotas, cada qual com seus motivos, mãos dadas, e todos ali, pra ela, têm em quem se apoiar, enquanto ela ali, caminhando, finge saber seu caminho, se perguntando por que ela vive assim. Ela se agarra nas mãos do vento, aquela sem toque, sem amparo, e segue seu passo. O mundo passando, a vida passando, e ela por imaginar uma história feliz pra si. História, sem realidade. E as pessoas passando por ela sem imaginar o que se passa naquela estranha menina, que finge ter rumo. Ela segue, com a esperança que um dia não importa aonde ela vá, exista alguém que a espere.
E vai ser assim. Perguntas, frases, cartas, versos, todos sem resposta. Canções sem abraço. Nem olhares, nem confissões. Noites amargas, caminhos sem rumo, e sem espera. Enquanto a vida quiser, enquanto a solidão fizer parte dela, enquanto o mundo passar... a vida passar.

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